O meu nome é Nine, 009

Nine

Eu sou tipo o cão mais cool do mundo. Sou magricelas, pequenino, tenho um look original e sou cinzento. No meu peito exibo uma vasta e masculina penugem branca. As pessoas adoram dar-me festas e eu sei porquê… Eu não tenho pelo, tenho apenas a minha pele macia e suave que é irresistível. Não! Claro que não me depilo, não sou desses tipos metrossexuais, sou todo eu “au naturel“! Eu sou mesmo assim porque tenho uma doença muito rara chamada displasia folicular.

     A minha mãe diz que eu sou único no mundo; ela olha para mim às vezes e diz “my precious”, igualzinha ao Gollum, sabem…naquela voz estranha…até me dá arrepios! Ela é louca por mim e eu sou louco por ela, é a minha mamã.

     Não me lembro muito bem da minha história… Acho que não existe nada nela que valha a pena relembrar. Lembro-me de ter vivido na rua. Também me lembro das pessoas me usarem como se eu fosse uma bola saltitona… hey, não sou nenhuma bola! Vivi num abrigo durante cerca de quatro anos. Era muito conhecido, quase famoso, o cão sem pelo, toda a gente sabia o meu nome, e à conta dessa fama conseguia sempre um monte de biscoitos só pelo facto de ser tão giro! Era feliz lá, todos me amavam e mimavam mas…não era uma casa e eu gosto de ser o centro das atenções e ali, na União Zoófila, existiam quase mil como eu a precisarem de muito amor. Eu sou o Nine, 009. Sou tão raro e tão famoso que até participei numa campanha de adoção, ao lado de um ator quase tão famoso como eu.

     Apesar de alguns infortúnios, acho que sou um gajo com sorte. Durante todos esses anos, apesar de toda a gente me conhecer, ninguém me queria levar para casa. Eu era apenas um entre as centenas de patudos que lá estão, mas nunca desisti do sonho de ser parte de uma família, assim como todos os meus cãopanheiros. Mas houve um dia em que tudo mudou. Eu tinha uma madrinha! Uau, eu estava tão feliz! Alguém tinha decidido ajudar nas minhas despesas, na minha medicação diária e até mesmo levar-me a passear. A minha mãe… Ela diz que foi amor à primeira vista. Ela chamou-me “ratolo” da primeira vez que me viu, “Oh, que ratolo tão fofo”.

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     Ela vinha religiosamente visitar-me todos os fins de semana, e olhem que ela não é nada católica! Às vezes vinha buscar-me ao quarto e outras vezes pedia ajuda às minhas amiguinhas que lá estavam para nos ajudar (sim, porque eu fui-me habituando a ela e ficava histérico quando a via, trepava-lhe pelas pernas com as minhas garras…coitada da mamã). Mas ela lá vinha, punha-me a trela e vinha sempre de mochila, cheia de coisas boas só para eu comer. Eu sempre fui especialista em meter a cabeça dentro de mochilas, nem dão por mim de tão rápido que sou. Mas dizer adeus era cada vez mais difícil, por que é que ela não me podia levar? Mais tarde, lá acabei por perceber…ela tinha duas mulas todas grossas lá em casa, a Zucka e a Luna…não que elas fossem más, porque aquelas duas é só mesmo estilo de badass porque de más não tinham nada, mas eu…pronto, sou um gajo delicado e sensível, normal que a mamã estivesse receosa.

     Não sei bem quanto tempo depois, mas um dia ela veio ter comigo lavada em lágrimas. Estava que não podia…eu pensei…”ui, a mamã está com TPM, queres ver?” Abraçou-me com imensa força, quase que me sufocava…estaria carente também? Porque estava tão triste? Depois lá percebi, com a minha audição de águia, que alguém estava também apaixonado por mim e me queria adotar… “WTF!” pensei eu (sim, porque eu também sei inglês). Alguém me queria adotar e não era a minha mamã! Vi-a então conversar muito triste, com uma das minhas amigas, a dizer que andava há imenso tempo a pensar adotar-me mas que tinha medo e que agora era tarde demais, estava devastada. Porra, eu fiquei devastado! Não queria dizer-lhe adeus, ela era tão querida comigo, estava habituado a estar com ela. Gostava tanto dela que lhe trepava às pernas como se fosse um coala, agarrava-me a ela como se estivesse no topo da torre Eiffel.

     Como disse no início, sou um gajo com sorte e o meu destino estava traçado. Estávamos destinados. A minha amiga da UZ disse à minha mãe que, caso a adoção não se concretizasse, sendo ela minha madrinha, teria então prioridade na adoção e que valia a pena tentar. Se ela quisesse, eu seria todo dela! E adivinhem! Naquele domingo, ninguém apareceu para me vir buscar…talvez porque eu precise de medicação diária para o resto dos meus dias ou provavelmente porque passei a noite toda a rezar para que não viessem (e olhem que eu também não sou religioso!) ou então, confesso que também me passou pela cabeça, ela fê-los desaparecer do planeta (sim, ela tem poderes especiais…eu assisto a este dom todos os dias…ela diz certas palavras e eu perco o tino, vou a correr que nem um louco, ela tem mesmo poderes especiais).

     E assim começaram os preparativos. Iam mudar de casa para um espaço maior e iniciaram-se as apresentações às babes…sim, mesmo babes, elas eram umas brasas. Na foto abaixo podem ver o nosso primeiro passeio. Já estão a ver, não é? Eu, 009, gajo do meio (o pequenuto mas lindo), com duas babe destas….upa upa, andava de cabeça erguida na rua (exceto nesta foto que estava a cheirar a relva e a ver se havia algo para trincar). O que posso dizer? Sou irresistível…elas adoraram-me. Ao final de mais três passeios lá fui eu, esmagado por tanto amor, no banco de trás do carro. Agora sim, com duas bodyguards destas podia seguramente dizer “Eu sou o Nine, 009 com licença para ladrar”.

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     Nem sei o que vos diga…não tenho palavras. Ter uma casa grande, com terraço, duas amigas, um pai, uma mãe e imensos novos amigos humanos. Ter um sofá, ver televisão, ter um comedouro só para mim, uma mantinha, dormir na cama enroscado à mamã. Tinha ido para o céu. Sei que sou um tipo com sorte, mesmo muita sorte. Dói-me ver diariamente os patudos como eu que são maltratados, abandonados, que vivem uma vida à espera de uma família e atenção, sei por experiência própria que, no lugar onde estava, era muito amado, muito bem tratado mas uma casa, um lar…é outra coisa. Tantos meninos como eu à espera e ainda há quem compre, em busca de uma raça…nós somos TODOS de raça, temos sentimentos, inteligência e muita gratidão por quem nos estende a mão.

     Não preciso lembrar-me do passado. Vivo no presente e vejo o meu futuro glorioso e especial. Eu não era um cachorrinho, já tinha sete anos quando a minha mãe me veio buscar, um agente especial reformado com medicação diária para toda a vida, por isso cãopanheiros, nunca percam a esperança! Eles entenderam o quão especial eu era, e adoram o facto de que eu ser único; e cá para nós, que eles não nos ouvem, eu sou o Rei da casa! Eu sou o Nine, 009… Sou parte de uma família que me ama. Entretanto emigrámos, e adivinhem! Não fiquei para trás, somos uma família cosmopolita e já dou uns toques de castelhano e catalão!

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2 thoughts on “O meu nome é Nine, 009

  1. Adorei! 🙂
    O Nininho é um caso de charme,a que é impossível escapar…!Um serzinho único e irrepetível.
    Basta ver a atenção com que nos olha,com uma intensidade naqueles olhinhos redondos…:-)
    Marca quem o conhece,sem sombra de dúvida.
    O meu neto,de quatro patas!

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