Mudam-se os tempos…

tempo

O Ontem

     Nasci num ano de grandes colheitas, 1978. As minhas primeiras tardes de brincadeira foram passadas no “resto-do-chão” (um lugar especial do meu imaginário que mais tarde se veio a provar ser a entrada do prédio, comumente conhecido como rés-do-chão). Neste “resto-do-chão”, as atividades variavam entre escondermo-nos cada vez que ouvíamos uma porta e fazer uuuuuu (eramos crianças no mínimo aterradoras, gabo a paciência dos meus vizinhos, que ainda hoje me dizem olá com um grande sorriso), ou saltar nas escadas para ver quantos degraus conseguíamos evitar (coisa que me valeu uns valentes bate-cus, mas nenhuma ida ao hospital, pelo que me considerava uma atleta de alta competição).

     Depois decidi explorar o mundo para lá dos vidros, que incluía a minha rua e as traseiras, onde havia um espaço fabuloso para descer com a bicicleta Orbita ou o meu skate do Continente e patamares macios para dar mais uns bate-cus de patins e um excelente muro onde praticávamos a arte dos graffiti com cenoura fresquinha e claro, a Bota Botilde.

     Quando o tempo não estava para saídas, passava horas na minha atividade favorita, a jogar ao elástico com a ajuda das cadeiras da mesa de jantar. Também passei a fase de querer estar na moda com carradas de papelotes no cabelo e muita laca para dar aquele efeito caniche. Depois apareceram os Sinclair ZX Spectrum (Load “” Enter e esperar uma eternidade com uma reza pelo meio para que o jogo carregasse até ao final), os Amiga, as Sega e por aí fora, mas ainda assim preferíamos tirar proveito das coisas simples como usar o gravador de suporte para gravar coisas parvas. Mais tarde os pagers e os primeiros telemóveis.

     Podia estar aqui horas a lembrar muitas outras coisas. Não éramos uma família com muitas posses, apenas o meu pai trabalhava, mas a vida era mais simples, prazerosa e mesmo com os momentos menos felizes, que também os tive, estas boas recordações, ninguém mas tira.

 O Hoje

     As crianças e adolescentes de hoje estão ligadas à máquina, vivem ligadas à ficha. Nascem já com os dedos nos teclados de um smartphone ou de um tablet, e nós achamos delicioso que tão rapidamente se adaptem às novas tecnologias. Já não assistimos a concertos ou passeamos…em vez disso, deslocamo-nos a locais e eventos para fotografar e filmar para mais tarde partilhar nas redes sociais a vida tão interessante que temos.

     Quando, num estágio curricular que fiz numa escola primária de Lisboa, perguntei aos miúdos o que mais gostavam de fazer, responderam-me com tristeza que era andar de bicicleta e brincar com os amigos na rua. Porquê a tristeza? Porque é algo que raramente fazem, o tempo livre que têm, passam-no a jogar consolas ou no computador.

     Há pouco tempo vi um vídeo que retrata na perfeição aquilo a que me refiro. Tal como aquela mãe, chorei (bom, é verdade que me emociono facilmente, mas aquela mensagem é poderosa). Não me emocionei por ver ali retratados os meus filhos… os filhos que tenho têm 4 patas e a única atração que têm para com consolas são, ocasionalmente, os cabos…Emocionei-me por ver para onde caminhamos, pelas tantas lojas de crianças que fecharam portas, pela ruas e parques infantis vazios, por ver os valores que são transmitidos e as memórias que ficarão nesta geração. Serão memórias como “epá, lembro-me tão bem do dia em que fiz 50.000 pontos e alcancei 50% dos troféus”, ou “no Inverno passado consegui terminar o jogo xpto”! As “nossas” crianças não socializam, não convivem, afastam-se do que é ser-se humano, sentir emoção, rir, raspar um joelho, jogar à macaca.

     As razões ou desculpas serão muitas. Chego a casa de rastos, ambos trabalhamos até tarde, estava trânsito, a segurança nas ruas já não é o que era…tantos motivos, exemplos, alegações, comparações com o ontem e o hoje, podias elaborar mais uma lista mas, afinal de contas, é o presente, basta olhar ao nosso redor…Será assim tão complicado sairmos do nosso modo piloto automático, e voltar atrás? Regressar ao passado e relembrar as tantas memórias felizes que criámos, que nos fazem sorrir quando lá voltamos, que nos ficaram gravadas na retina. Não é isso que queremos para os nossos filhos? Que cresçam, experimentem, tenham amigos, possam chorar e rir às gargalhadas com as coisas parvas e saudáveis que fazem parte do crescer? Que memórias estamos nós a criar para eles?

O Amanhã

     Deixo-o em branco, sou uma sonhadora e otimista. Talvez existam mais pessoas por aí que, como eu, adoram viajar ao passado para que o possam trazer ao presente. Poderia este texto ser um tesourinho deprimente dos anos 80-90, mas é, na realidade, um tesouro dos mais preciosos que existe, o de viver.

2 thoughts on “Mudam-se os tempos…

  1. também espero que não Margarida. Os pais terão um papel importante, mas como seres humanos que somos, também temos o livre arbítrio de questionar e escolher o que nos faz mais sentido…a ver vamos:)

  2. Concordo plenamente. Espero que não estejamos a criar uma humanidade,totalmente voltada para o seu próprio umbigo.
    Mas,como a esperança é a última a morrer…veremos…

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